Era dia 14 de maio e eu tinha acabado de chegar a casa, vindo de trabalhar no café do meu pai, ou seja, de apanhar uma descomunal seca. Mal me tinha sentado quando recebo um telefonema de um numero desconhecido, um 21 qualquer coisa. Esse telefonema mudou a minha vida.
Marcou-se uma entrevista para o dia seguinte, em Lisboa, as 11h30 no hotel. Lisboa... Lisboa!? Quando é que eu tinha falado que gostava ou tinha pensado em ir trabalhar para Lisboa...? Hum... Ah! Já sei! NUNCA!
A entrevista correu bem, achei eu. Pelos vistos tinha razão para tal... Estava a ir de metro para o Campo Grande para de aí ir para casa do Luis e voltar ao Pedrógão quando recebo um telefonema, eram umas 18h e tal... Era aquele 21 do outro dia... "Raul, tivemos a analisar a sua entrevista, está interessado no lugar?" Hesitei... mas por não estar á espera de uma resposta tão imediata... e disse "sim".
Começava dia 1 de Junho. Tinha duas semanas para arranjar casa, tratar de tudo e de nada. Assim o fiz, arranjei casa, organizei a vida para a mudança, "despedi-me" de Coimbra e das minhas pessoas que tanto me ajudaram nestes anos. E despedi-me da minha aldeia, tão calma e tranquila, onde tenho o melhor sítio do mundo, onde cresci e sempre vivi, onde me fiz a pessoa que sou hoje.
Pedrógão do Pranto. Não tem nada de especial, de todo... Mas tinha tudo o que sempre precisei. E despedi-me da melhor maneira, com a festa popular da aldeia, com um noitão alucinado a fazer TT num jipe sem turbo, com muito alcool, muito riso... E com a familia no domingo, a ter que levar um andor com aquele calor abrasador e de ressaca. Jantei e vim para Lisboa...
Atrasei-me no primeiro dia de trabalho. Sim, sim perdi-me. Não de casa para o trabalho, mas porque fui comprar uma gravata cinza que nem cheguei a usar nesse dia. O lugar era o de recepcionista de hotel...
A minha formação, para quem não sabe, é Licenciado em Turismo pela ESEC. Não tinha esperiência em recepção de hotel mas quão dificil haveria de ser? Sempre tive trabalhos relacionados com o atendimento ao cliente e que envolvesse a interacção entre pessoas, por isso não havia de ser nada. E não foi, só o Fidelio é que foi algo novo mas nada que me tenha dificultado a vida.
Aprendi a fazer o Night Auditor, das 0h as 8h, ao fim do primeiro mês... Para no seguinte fazer as férias do colega que fazia o Night Auditor. Ou seja, de não ter experiência em hotelaria para já fazer o Night Auditor foi um pulinho. A minha versatilidade e adaptação fez com que eu continuasse a fazer o Night, agora nas folgas do Night. Ou seja, tenho o horário que ninguém quer. Faço as folgas do Night, a folga do turno da manhã e as folgas do turno da tarde. E ainda, as noites que trabalho são á sexta e ao sábado... Riam-se da minha desgraça vá.
Vida nova, saída de casa dos pais, mudança para a cidade e logo a capital... Começo no mercado de trabalho, num trabalho e mundo novos... Mas a adaptação foi boa, muito boa aliás.. E suave. Desde o ínicio que não me senti "perdido", que me orientei, que fiz a minha vida. Houve um dia mau. Um. Sim, só um. Em que 1001 pensamentos me passaram pela cabeça mas isso foi consequência de duma situação perfeitamente anormal e que sei que não vou deixar acontecer novamente.
Passaram-se 3 meses e 8 dias desde que me mudei para Lisboa. Já tenho histórias e vidas de Lisboa para contar... E uma coisa não posso negar... Gosto disto e de cá estar.
Diz que esta, agora, é a
minha cidade...

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